sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Bubbles






Este era o nome do macaquinho de estimação de Michael Jackson, lembram-se? Não consigo associar "bolhas" com um símio, mas o nosso saudoso excêntrico artista via coisas onde ninguém via, daí parar o comentário por aqui mesmo. Outro artista,Tom Storm , não vê bolhas nas coisas mas vê coisas nas bolhas. Seu trabalho fotográfico é registrar o mundo refletido na superfície delas, criando uma outra perpectiva de se ver o entorno, e assim ele registra a Times Square,as montanhas da Capadócia, a Porta de Brandemburgo,a Cloud Gate (de Anish Kapoor), Washington e mil outros lugares deste nosso planetão. Achei interessante as imagens que me lembraram uma brincadeira que tinha o hábito de fazer na infância que era ficar andando pela casa com uma bola de natal na mão me deliciando com a deformação do ambiente refletido nela. Num dos posts anteriores mostrei Escher fazendo a mesma coisa, daí deixar as imagens aqui para todos se divertirem.

Império das Luzes


René Magritte pintou este quadro em 1954 e o tenho como uma obra definitiva. Claro que os critérios são particulares, já que não sou crítico de arte ou seja lá o que for, mas, como existem tantas estéticas quanto pessoas, me coloco como um esteta de mim mesmo. Tudo isto é para fazer um comentário sobre o cotidiano e como a arte pode fazer parte dele como algo não anormal ou refém de erudição, mas como potencializadora das individualidades.
Como o tempo melhorou - depois de muita, mas muita chuva mesmo - pude largar minha esteira e fazer a minha caminhada matinal nas ruas. Saio na madrugada, ainda sem luz no céu, e à medida que caminho vou vendo o dia clarear e é um prazer único compartilhar com os varredores de rua, vigias de estacionamento, guardas municipais e outros "cidadãos da madrugada", as luzes que surgem no céu. Hoje, depois que a lua se pôs, uma luz cristalina invadiu o céu e fez um belo contraste com as casas - ainda imersas nas sombras da noite que partia - e com a artificialidade da iluminação pública. Aí veio Magritte se mostrar e dizer que a arte pode ser um usufruto rotineiro, mesmo que as pessoas não saibam dela.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Sebastião/Vik/Marat






Estréia nesta sexta-feira, dia 21 de janeiro, o filme Lixo Extraordinário, documentário dirigido por Lucy Walker, João Jardim e Karen Harley, sucesso em festivais de cinema por todo o mundo, inclusive no Festival de Berlim de 2009 onde ganhou o prêmio máximo de melhor documentário. O filme conta a história da ação do artista brasileiro Vik Muniz no Aterro Sanitário de Jardim Gramacho onde fez uma parceria com os catadores de lixo para o munirem de material para sua obra, hoje conhecida por todo mundo. Foi lá que conheceu Sebastião Carlos dos Santos, presidente da Associação dos Catadores do Aterro. Foi um encontro que mudou a vida de Sebastião, mas no início a coisa não foi fácil.
Muniz chegara ao aterro - que recebe todo o lixo descartado na cidade do Rio de Janeiro - com um objetivo triplo: montar uma série de quadros a partir dos dejetos, colocar os catadores para trabalhar no feitio dos quadros e filmar tudo para o documentário "Lixo Extraordinário".
Após dois meses retratando o aterro sanitário, Muniz contratou cerca de dez catadores para montar as imagens, num galpão em Parada de Lucas, subúrbio carioca e pagava a eles R$ 75 por dia, quantia semelhante ao que receberiam com o que extaríam do lixo. Quem viabilizava o contato era Sebastião Santos, uma espécie de "embaixador de Gramacho", nas palavras de Muniz.
Sebastião começou a frequentar o aterro na infância, quando o pai, que trabalhava como estivador no cais do porto, se viu desempregado pela chegada dos guindastes. Sem opção toda a família se viu obrigada a ir para o lixão tirar dalí o seu sustento, mas ele, por ser muito pequeno só ía entregar a comida e passava o dia brincando nos montes de lixo.
Aos 18 anos, depois de ter se afastado do lugar, Sebastião resolveu voltar a Gramacho para trabalhar em uma cooperativa que recebia o material coletado. Nas noites de sábado, quando não estudava, ia para o aterro complementar a renda.
Numa incursão noturna, encontrou o livro "O Príncipe", de Maquiavel. "Eu conhecia a palavra 'maquiavélico", conta ele, "me deu uma neurose de ler aquilo. Levei pra casa, sequei atrás da geladeira e, partir daí, passei a pegar todo livro que encontrava." Depois da experiência que foi importante não deixou passar nenhum livro no lixão: catava e lia o que podia, entre as leituras leu Schopenhauer e Nietzsche.
Em 2007, dois anos após comandar um protesto contra a prefeitura, Sebastião foi eleito presidente da Associação dos Catadores. Logo depois de assumir ligaram para ele para dizer que um artista brasileiro queria fazer um trabalho com os catadores: era Vik com seu projeto.
No início Sebastião não seria fotografado: sua função seria de acompanhar Vik no aterro, para apresentá-lo aos catadores. Foi assim até o dia em que Zumbi, seu amigo, surgiu no meio do lixo, carregando uma banheira. Vik teve um estalo e disse, na hora: 'Vamos fazer o Tião de Marat? Ele morreu no banho. Resistente, Sebastião só cedeu à idéia após ouvir que Jean-Paul Marat (1743-1793) havia sido um dos líderes da Revolução Francesa."Combina comigo", disse ele. A foto foi feita e daí o quadro.
Em 2009 aconteceu um leilão na Phillips de Pury, em Londres, e a obra foi arrematada por 28 mil libras (74 mil reais). O dinheiro arrecadado foi revertido para a Associação dos Catadores e trouxe muita coisa boa que, segundo Sebastião, mais do que o dinheiro, o retorno profissional foi o mais positivo: "Hoje vou receber a visita de 21 alunos de uma universidade de Nova York que viram o documentário. Daqui a três dias, tenho um encontro no BNDES, para falar sobre o futuro do aterro, que deve ser desativado em 2012."
A amizade com Vik Muniz permanece: "Outro dia a gente se encontrou, no aniversário da filha dele. Às vezes, fico pensando quando vai dar meia-noite, e a carruagem vai voltar a ser abóbora. Mas não dá. Já faz três anos que esse meu conto de fadas não termina" , disse ele em entrevista recente na mídia.
Agora é assistir toda esta história no cinema.

Que papelão!!!





Seguindo na onda ecológica e da indústria da reciclagem de materiais descartáveis que - graças aos deuses - assola boa parte do mundo, os designers Liam Hopkins e Richard Sweeney, criaram a poltrona Bravais e o sofá Radiolarian usando papelão saído da manipulação do papel colhido nas ruas feito pelas usinas de aproveitamento de lixo. Muita coisa já é produzida no mundo com material saído desta fonte industrial, mas o que é interessante é mostrar que o pensamento artístico e o conceito do design, quando prevalecem, mostram como este pode ser "o" caminho da reciclagem. As duas peças que ilustram este post são exemplos nítidos de que a ética, aliada à técnica, pode gerar uma estética. Ponto para eles.

Iluminação zen




A empresa de mobiliários Dedon lançou no mercado de decoração a poltrona Ying Yang, criada pelo designer Nicholas Thomkins. Como o nome da peça já diz, ela nasceu da idéia do símbolo de mesmo nome, que representa - a grosso modo - o equilíbio e a dinâmica dos opostos.
Mesmo com esta associação imediata, o designer disse que, na verdade, ele se inspirou nas praias da ilha de Cebu, na Indonésia, onde teve insights de paz profunda, daí o aspecto místico da sua concepção. Well, meu caro Thomkins, assim, neste cenário paradisíaco, até eu vou mole, mole, atingir o Nirvana. Brincadeiras a parte, o resultado é poderoso. Totalmente zen...

Boas idéias no improviso






Eu sempre estou de olho em coisas improvisadas pois tenho a sensação que alí posso detectar boas idéias. Bem, tenho certeza que não estou sozinho nesta postura, aliás acho que estou em ótima companhia. Vejamos...
O arquiteto Marcio Kogan, cujo magnífico trabalho já sigo desde eras pré-twitter,e sua equipe de arquitetos do StudioMK27 tiveram uma idéia que me foi surpreendente, mas familiar: olhar para peças criadas com sobras de materiais usados em canteiros de obras da construção civil, normalmente móveis improvisados com restos de madeira, etc. e darem a elas uma perspectiva estética com o objetivo de ressaltar os aspectos artísticos de cada uma.
Por algum tempo, os arquitetos do MK27 passaram a colecionar banquinhos, mesas, penduradores e outros objetos que eram feitos e abandonados pelos trabalhadores da construção civil após o término das obras, mas até então não sabiam ao certo o que fazer com eles. Bem, parece que eles descobriram: o resultado foi o tema da exposição "Próteses e Enxertos" onde 16 destas peças foram exibidas com o novo olhar onde a rusticidade inicial foi acrescida de materiais tecnológicos como fibra de carbono e aço, além de alguns toques kitsch evidenciando o contraste entre o prático e o estético.
Sobre essa iniciativa de customização dos “pupilos” de Marcio Kogan, a doutora em filosofia Maria Cecilia Loschiavo dos Santos escreveu um artigo, em que faz algumas observações bastante pertinentes: “É importante salientar que a adição dos elementos industrializados às peças originais provoca um efeito de contrastes e estranhamento, uma inesperada conflagração dos materiais que conecta diversas temporalidades, identidades e novas funções. Na maioria das peças construídas com o reuso da madeira, aparecem os metais, as fibras de carbono e o vidro, levando-nos a repensar as transições dos produtos e dos materiais – e, por conseqüência, dos próprios limites do planeta”, diz a especialista em estudos sobre design.
Com nomes curiosos e bem humorados como Mesa Radiola, Mesa Alumiada, Mese Quereres, Banquinho Bo e Mesa da Hora mostram que a equipe comprou a idéia e mostrou que realmente existem boas idéias nas coisas improvisadas. Achei o máximo.

Vamos todos cirandar






Como uma roda de leitura da poesia carioca, a coleção "Ciranda da Poesia" da Editora UERJ, organizada por Ítalo Moriconi traz, em sete volumes, poetas lendo poetas, através de análises e pequenas antologias. Com um prêço acessível de 15 reais cada livro, podemos ler Antonio Cicero visto por Alberto Pucheu (100 págs); Carlito Azevedo por Susana Scramim (110 págs); Chacal por Fernanda Medeiros (116 págs); Claudia Roquette-Pinto por Paulo Henriques Britto (84 págs); Guilherme Zarvos por Renato Rezende (80 págs); Leonardo Fróes por Angela Melim (64 págs) e Sebastião Uchoa Leite por Franklin Alves Dassie (92 págs). Pelo elenco pode-se antever boas surpresas, o que faz esta publicação curiosa ser muito bem vinda, e termos a certeza de que só vai enriquecer o universo dos leitores e autores de poesia do Brasil.Nas fotos podemos ver os livros e tres dos participantes do projeto: Chacal, Antonio Cícero e Sebastião Uchoa Leite.